Por questões puramente acadêmicas, fui obrigado a assistir ao “Programa Raul Gil”, dentre outros exibidos pela Band.
O programa é a exata representação do universo da sociedade de massa: um apresentador impondo-se como o dono da verdade e repetindo os clichês que interessam a ela e à sua emissora; uma platéia composta por pessoas burras, vibrando em coro aquilo que lhes é ordenado; músicos de péssima qualidade – e enorme sucesso – e pessoas querendo ser famosas – sem ter talento, pelo menos talento lapidado, para isso.
O mais impressionante, porém, foi o quadro “Eu e As Crianças”, onde meninos e meninas muito pequenos vão cantar, dançar e se portar como adultas – e idiotas.
Para a composição desse quadro, a ordem do cenário é mudada e, no lugar de moças entre 18 e 25 anos, de roupas curtas, dançando sem coreografia, são colocadas garotas de 7 à 11 anos, vestidas da mesma forma e dançando da mesma maneira – ou seja, meninas vestidas como mulheres-objeto, com roupas coladas ao corpo, barriga de fora, pernas cruzadas e mãos na cintura – com muita naturalidade e arrogância, como se elas tivessem mais sorte e fossem melhores do que as meninas que estão em casa, brincando com bonecas.
Mas o pior não é isso. É imaginar o universo familiar e social dessas meninas: os pais orgulhosos por elas dançarem na TV – e ansiosos pelo cachê que elas receberão; os vizinhos agrupados numa mesma casa, bebendo cerveja e comendo amendoim, para vê-la dançar; as avós mostrando a fita do programa às amigas da igreja. Tudo muito cínico e muito estúpido. Ao invés de ensinarem a essas meninas a importância da cultura, do conhecimento e da saúde e valor do próprio corpo, não, esses pais, avós e vizinhos, as reduzem a bibelôs e as ensinam a incorporar essa imagem, de corpo-objeto, como o ideal de felicidade e sucesso.
Claro que a mídia tem enorme influência nisso. O fato do próprio Raul Gil, que se auto-denomina avô de seus calouros, aceitar uma cena como essa em seu programa demonstra o seu enorme descaso com a sociedade. Sem falar nos programas que se dedicam a enaltecer as frutas e peças de carne do funk, como protótipos de sucesso e beleza femininas, e a exaltar tudo o que outras mulheres (famosas, claro) conseguiram por meio da beleza.
E aí, surge um pedófilo. E ele persuade e se aproveita das crianças. E filma tudo. E põe na internet. E quando isso vem a público, ele é o único criminoso. E os pais... pobres pais.
O irônico é, antes de tudo, um organizado. Pode-se chamá-lo até mesmo de maníaco. O mais leve desvio geométrico na posição do vaso é demais para ele. Em sua obsessão, com seu olhar clínico, o colocará na posição certa, aquela que o deixe em consonância com os outros móveis e objetos. Para alguns, isso pode parecer loucura. Mas não. Com o perdão dos desorganizados, ele só o faz para tornar o ambiente mais agradável.
A internet está parando. Os sites, blogs, portais não são mais atualizados como antes. Alguns deles ficam horas ou, no caso dos blogs, dias, semanas, com as mesmas notícias e textos. A internet está parando? Ou o segundo de informação tornou-se lento? Ou a vida real tornou-se mais rápida que a internet e tudo o que eu disse não passa de um erro, um grave erro, de percepção?
Numa escola de quinta à oitava série, havia uma garota de 12 anos com um shortinho menor que a calcinha; outra descrevendo o “tanquinho” de um colega de 14 anos (um tesão, segundo ela); quatro ou cinco moleques imobilizando um garoto - fingindo ser bandidos; uma de 13 com os peitos pulando pra fora, mandando um menino “pro caralho” e o policial, em frente à escola, olhando as meninas. Ele queria cuidar delas. Sozinho, de preferência.
Só estranhei uma coisa. Ninguém estava dançando o “créu”. Não tem som naquela escola?
Freud estava certo. O homem não deveria viver mais que cinco anos. Tal como o animal de que se originou - animal misterioso, que durava apenas cinco anos e era feliz durante toda a vida. Isso porque não precisava se sociabilizar, não era reprimido, não ia contra a sua própria natureza, não a sufocava. Era o que era. E ponto.
Mas nós insistimos em ser o contrário. Em fazer parte do mundo. Em crescer, sermos nobres, civilizados, bem-sucedidos. E ingênuos. Porque o nosso animal de origem persiste, mesmo oprimido, é mais forte. É perverso. Traiçoeiro. E nos força a destruir o outro, os laços que desenvolvemos com ele, matar, acabar com uma história.
Matamos uma história. Nós. Domados por nossos animais e influenciados pelas tragédias shakespearianas; pela afiada escuridão de Nelson Rodrigues; pelo exagero de “Desperate Housewives”; pela densa melancolia de “A Sete Palmos”. Animais reprimidos que fomos e somos, recalcamos e sublimamos nosso instinto através da ficção. Para sermos animais sem admiti-lo, tratamos a vida como uma comédia dramática. Engraçada até que e torna triste, obscura, trágica. Comovente para o público. Mas sem espectadores na vida real. Ninguém quer saber dos animais.
Ao final da história, resta o vazio, a tristeza, o desalento. O desespero, as perguntas. Como será daqui pra frente? Empatia com “A Sete Palmos”. Desvario com “Desperate Housewives”. Consolo nas palavras de “Hamlet”. Catarse em Nelson Rodrigues. E só. E nada irá mudar. Continuará o desespero. A realidade é percepção, mas não é ficção. A realidade é viva, a ficção ganha vida. Mas não oferece vida.
Por que não morri aos cinco anos?
Por que não morri aos cinco anos?
E não terão com quem falar a respeito. A espiral do silêncio. Os dois solitários, cada vez mais. Assim é. Se ao menos houvesse um reencontro. Corridas, abraços, pedidos, lágrimas. Mas não haverá. A ficção é egoísta. Não empresta nada à vida. Só toma emprestado.
Ela estava cansada de procurar, procurar e não encontrar alguém para namorar, noivar, casar. Buscava o amor da sua vida aonde quer que fosse: na balada, na livraria, na padaria, na fila do banco, no elevador, atravessando a rua – até se encantou por um motorista que a deixou atravessar – e quase foi atropelada – pelo mesmo.
Uma vez, foi ao velório do primo da irmã de uma amiga da amiga e pensou “ah, se o defunto fosse vivo”. Mas estava morto. Assim como a sua esperança. Até que lhe disseram:
- Não adianta procurar! O amor vem!
Dito assim, ela resolveu mudar a tática do jogo:
- Time que está perdendo se mexe!
Sentou-se, linda e delicada, na cadeira do século XIX. Os cabelos presos a uma fita rosa-romance-água-com-açúcar e um braço apoiado na janela. O olhar fingia distração e esperava que uma Mercedes preta estacionasse em frente ao seu prédio e dela saísse um belo homem que declararia, cheio de poesia, todo o seu amor e subiria, pela escada, dezenove andares. Tudo isso para encontrá-la. E eles se beijariam, se casariam e viveriam felizes para sempre.
O tempo passou e isso não aconteceu. Resolveu sair de casa. encontrou os amigos, colegas e conhecidos. Todos estavam sentindo muito a sua falta. Ela explicou o porquê do sumiço. E suspirou a nova desilusão. Até que lhe disseram:
- Não adianta ficar parada! O amor não aparece assim, do nada, na sua janela!
Um garoto e seu amigo param na fila da cantina da cantina. Nela há um cartaz escrito: "Sanduíche Natural por R$ 3,50". Ao lê-lo, o garoto diz:
- Ê, ninguém fala sanduíche, é lanche! Mesma coisa biscoito...
- É bolacha.
Era gordo, quarentão, de camisas listradas, colocadas para dentro da calça. Cinto marrom, fivela prateada e sapato de mesma cor. Não que usasse sempre o mesmo tipo de roupa. Usava sempre a mesma roupa. Isso nos últimos quatro anos. Esteve desempregado. Mas agora se arranjou. E disse para o amigo:
- Mas o melhor de tudo, não foi ter arranjado o emprego. Foi a grande lição que eu aprendi.
- Qual?
- O fundo do poço tem mola!
O amigo foi pra casa pensando sobre o que o outro lhe disse. Pensou, pensou e chegou à uma conclusão:
- Se o fundo do poço tem mola, quer dizer que tudo é uma questão de impulso. Dependendo do impulso, a gente sai ou volta pro fundo do poço.
Pensado isso, não pôde entender como o amigo ficou quatro anos desempregado.
Um grupo de amigos estava no bar. Um deles servia a cerveja no copo do mais "inteligente", aquele que mais falava, o chato da turma, que, por sua vez, se dizia o invejado. Ao ver seu copo simplesmente cheio, o chato, ou "invejado", disse:
- Por que parou de colocar?
- O copo encheu!
- Quem disse?
- Olha, está cheio até a boca. Isso basta, não?
- Nem sempre – respondeu, com um enorme sorriso, balançando levemente a cabeça.
Era demais a sua sabedoria.
Encontrou a amiga depressiva. Ouviu seus milhares de problemas com o namorado, que não lhe dava amor suficiente, segundo ela. Muito generosa, a amiga lhe deu, de graça, a solução. Em simples palavras. Disse:
- Você não tem que ficar presa a ele. VOCÊ tem que se bastar!
A amiga depressiva resolveu seguir o conselho da outra. Terminou com o namorado. Não queria mais saber de homem. Tempo depois, sentindo-se só, ligou para a outra e disse:
- Estou me sentindo só.
- Também, você não se deixa prender por ninguém!
Chegou esbaforido, mas aliviado. A mãe estava sentada à mesa, tomando café e fumando, sossegada. Ao recuperar o fòlego, disse para ela:
- Deu tempo de pegar o banco aberto. Paguei sua conta.
- É como eu sempre digo: tudo na vida tem solução.
FIM
PS: espero que estejam mais sábios após estes pensamentos tão inteligentes.